9 de Março de 1500 . Uma frota comandada pelo jovem comandante Pedro Álvares Cabral - teria 32/33 anos na altura - parte de Lisboa ao meio-dia.
A sua missão era consolidar a presença portuguesa na Índia onde, em 1498, Vasco da Gama tinha chegado à Índia, depois de uma longa travessia pelos mares que durara um ano. Portugal tinha quebrado o monopólio económico que exerciam os árabes, turcos, venezianos e genoveses, nas rotas que ligavam o Mediterrâneo, África e a Ásia - era urgente negociar diretamente com os vários Reinos da Índia, estabelecer protectorados, reforçar as posições estratégicas em terra e nos Portos.
Para cumpri-la, formou-se, como escreve António Sérgio na " Breve interpretação da História de Portugal" ", a mais poderosa armada que jamais partira para longas terras", composta ao todo por 13 navios. Primeiro passam pelas Ilhas de Cabo Verde e a 22 de Abril avistam terra : um monte redondo e alto, rodeado de arvoredo ao qual Cabral chama Monte Pascoal e às terras, Vera Cruz ; avançam e alcançam a 24 de Abril uma angra à qual designam Porto Seguro; a 26 de Abril o capitão mor da expedição portuguesa manda celebrar uma missa, e antes de continuar a sua viagem para a Índia - Calcutá - ordena que se erija solenemente, no dia 1 de Maio, uma grande Cruz de madeira a assinalar a presença portuguesa , mandando voltar um dos navios da sua frota para informar o reino português da Descoberta.
Mas seria mesmo uma surpresa esta Descoberta ? Todos os indícios apontam o contrário: Jaime Cortesão, grande historiador e intelectual português, cuja obra é admirada e ensinada em Portugal e no Brasil, defende que Duarte Pacheco Pereira que era um dos capitães da armada de Cabral, tinha sido dois anos antes incumbido por D. Manuel I de descobrir " a parte ocidental, passando além a grandeza do mar Oceano, onde é achada e navegada uma tão grande terra firme, com muitas e grandes ilhas adjacentes a ela", referindo que na obra daquele, " Esmeraldo de situ orbis", está subjacente esse conhecimento prévio.
Ora, Duarte Pacheco Pereira era não só um navegante talentoso como um sábio cosmógrafo, e tinha participado ativamente nas negociações do Tratado de Tordesilhas, assinado a 7 de Junho de 1494, pelo rei português D. João II e pelos reis católicos de Espanha com a mediação do Papa Alexandre VI. Nele delimitava-se o mundo em duas zonas de influência: a ocidente de um meridiano de 370 léguas das Ilhas de Cabo Verde as terras a descobrir ficavam sob a alçada espanhola, a Oriente ficariam sob o domínio da coroa portuguesa, uma divisão cuja latitude geográfica já denunciava que se sabia da existência do Brasil.
Seja qual for a verdade histórica - talvez nunca tenhamos uma prova definitiva de uma ou outra tese- o que é um facto é que foi a 9 de Março de 1500 que tudo começou . Tudo o que somos, portugueses e brasileiros, foi influenciado por aquela viagem: não só mudou os homens, mudou as ideias, a Língua, a comida, os costumes, a cultura, a economia, a geo-política.
Hoje somos os novos navegantes de um novo mundo. Viajemos pelos mares da Língua Portuguesa no século XXI em direcção à mais importante Descoberta - a auto-descoberta da nossa riquíssima identidade cultural.
Autor: Rui Marques
