Semana das Mulheres com Sotaques - Música

Amália Rodrigues e Elis Regina: mitos da música, vozes da alma


Que nome foi este que sintetizou  um estilo, que grandeza  a desta mulher que foi e  é sinónimo de uma música secular, interpretada por uma infindável galeria de fadistas de ambos os sexos, mas que volta sempre  a essa denominação única, a essa alma mater musical  que se confunde com a própria  natureza  do  Fado ?
Amália é esse nome: chamá-la Amália da Piedade Rodrigues, dizer que nasceu em Lisboa em 1920, afirmar que começou a cantarolar nos bairros de Lisboa os tangos melancólicos  de Carlos Gardel, vendeu fruta, foi engomadeira e bordadeira na adolescência, participou na Marcha popular de Alcântara em 1936  e, mais tarde,  foi convidada a cantar na mais célebre casa de Fados de Lisboa chamada Retiro da severa, é ficar aquém do mito que é Amália Rodrigues. 
O resto da história, os concertos no Rio de Janeiro, no Olympia de Paris com Edith Piaf ou Charles Aznavour a aplaudir , nos Estados Unidos, a capacidade única daquela voz nos arrancar a  alma, de rasgar os versos de poetas magníficos como David Mourão, Alexandre O'Neil ou Pedro Homem de Mello, todos já conhecemos. Diz-se que Amália sucedeu  a outro mito, a Severa, mas rapidamente se tornou na encarnação do Fado, não numa rainha fugaz daquelas que vem e passam, mas no próprio género em si, poderoso como uma força telúrica soberba e imparável, num caudal de talento que nenhum crítico musical  consegue espartilhar, reduzir, caracterizar.
Amália, simplesmente Amália. Sem apelidos, substantivos e adjectivos. Só um nome que significa todos os nomes do Fado. 
Amália - Monumento nacional.
Elis Regina nasceu em Porto Alegre em 1945 e foi um exemplo de precocidade: aos 11 anos cantou pela primeira vez na rádio Farroupilha da terra natal, chamando logo ali a atenção para o seu extraordinário timbre de voz quente e profundo. Aos 18 foi para o Rio de Janeiro, na companhia do pai, atuando nas rádios locais e no mítico Beco das garrafas, que era então o ponto de encontro dos artistas cariocas, mas foi em 1965, quando venceu o  I Festival de música brasileira, na rádio Excelsior,  com a música " Arrastão", que o fenómeno Elis explodiu em todo o país.
 Daí em diante sucedem-se as músicas e parcerias inesquecíveis: das músicas podemos destacar " Atrás da Porta", " Romaria", " O bêbado e equilibrista" ou " Como nossos pais", entre tantos êxitos.
Das parcerias destacam-se  a que fez com Chico Buarque e, claro está, da especialíssima dupla Elis/ Tom Jobim que cantava o hino da MPB " Águas de Março" .
Elis morreu precocemente há 30 anos, aos 36 anos. Mas a " pimentinha" como lhe chamava Vínicius de Moraes, permanece na nossa memória com a palavra mais bonita da língua portuguesa: saudade, infinita, saudade. 
Amália e Elis, duas forças da natureza que carregavam a alma dos seus respectivos povos na voz profunda e hipnótica. Mulheres de garra, mulheres com Sotaques, mulheres imortais na nossa memória.
Autor: Rui Marques