São
duas vozes do amor total, incondicional. Daquele amor que Camões via para lá
dos sentidos, daquele fogo que incendiava os corpos e elevava as almas aos
céus, ao sublime estado do desejo, da paixão incandescente, das chamas que
iluminam as nossas pobres e mortais vidas.
O
amor literário em Portugal pode-se sintetizar em dois poemas . Na elegia
camoniana do amor que "é fogo que arde sem se ver" e no inesquecível
soneto " e é amar- te, assim perdidamente , é seres alma e sangue, e vida
em mim, e dizê-lo cantando a toda a gente" dos Sonetos de Forbela Espanca.
Florbela
Espanca veio ao mundo rodeada da luz melancólica das terras do Alentejo. No dia
8 de Dezembro de 1894, na Vila Alentejana de Vila Viçosa, Florbela foi baptizada
como Flor Bela de Alma de da Conceição Espanca, um nome que era já um prenúncio
de uma vida lírica ao serviço da poesia e do amor.
Frequentou
a Escola primária de Vila Viçosa onde escreveu os seus primeiros poemas entre
1903 e 1903 - o soneto " A vida e a morte" ou o poema em homenagem ao
seu irmão Apeles Espanca. Foi uma pioneira na educação oficial das mulheres no
país: das primeiras mulheres em Portugal a completar o Ensino Secundário e uma
das 34 mulheres matriculadas na Faculdade de Direito de Lisboa - entre
trezentos e quarenta e sete alunos que estudavam nesta Instituição.
Em
vida publicou duas Antologias poéticas -"Livro de mágoas" 1919 e
" Livro de Sóror Saudade" 1923 - e após a sua morte foram editadas as
obras " Charneca em Flor" , "Juvenília" e "
Reliquiae", e o conjunto da sua atividade poética foi reunida pelo
estudioso italiano Guido Bateli no volume " Sonetos completos" em
1934. Na célebre " História da Literatura Portuguesa" de António José
Saraiva e Óscar Lopes falam dela como uma poetisa com laivos anterianos, e
basta lê-la para descobrir uma mulher que vivia intensamente a sua poesia, não
a desligando dos seus amores frustrados, da infelicidade, do amor como
sentimento vitalista.
Foi
essa entrega total e hiper-sensibilidade que precipitou o fim. A morte do seu
querido irmão, Apeles, num acidente de avião em 1927 e um edema pulmonar
conduziu-a à doença e ao abandono de si própria, suicidando-se em Matosinhos,
terra onde vivia com o seu terceiro marido, aos 36 anos, no dia do seu aniversário,
a 8 de Dezembro de 1930, com uma sobredose de barbitúricos.
Cecília
Benevide de Carvalho Meireles nasceu no Rio de Janeiro no dia 7 de Novembro de
1901. Orfã de mãe foi educada pela avô portuguesa, natural dos Açores D.
Jacinta Garcia Benevides e começou a escrever poemas aos 9 anos, estudou na
Escola normal do Rio entre 1913 e 1916, tendo mais tarde iniciado a carreira
docente como professora.
Mas
foi na poesia que se afirmou integralmente: aos 18 anos escreve a sua primeira
obra " Espectro", um livro que já denota uma cultura enciclopédica
com influências do Modernismo, Classicismo, Romantismo, Parnasianismo, Realismo
e Surrealismo. Também era uma artista com uma grande variedade de interesses:
para além da poetiza escreveu poemas e contos infantis, tendo estado na génese
da primeira Biblioteca infantil do Brasil, foi jornalista vocacionada para
temas da Educação e pintora.
Obras
como " Saudação à menina de Portugal" ( 1930) - que resultou de uma
conferência dada em Lisboa, " Poetas novos de Portugal" (1944)
mostram, por outro lado, uma profunda ligação a Portugal . Que era inevitável
já que além da Avô portuguesa, Cecília era filha de açorianos e foi casada com
o artista plástico português Fernando Correia Dias, natural de Moledo de Penajóia
no Douro, visitou na década de 30 e 40 a região duriense, Viana do Castelo,
Coimbra Porto e Lisboa, onde não conseguiu falar com Fernando Pessoa depois de
um encontro combinado que acabou por não se concretizar.
É
frequentemente comparada a Sofia de Mello Breyner pela afinidade com o mar e
pela sensibilidade do seu olhar poético: nos seus poemas há uma imersão na
natureza, uma procura incessante da palavra definitiva sobre o mundo, os homens
e as coisas. Também podemos traçar uma ligação a Florbela Espanca na medida em
que em ambas há uma desmesura do amor, uma entrega ao ser amado sem limites,
única, sempre excessiva.
Morreu
a 9 de Novembro de 1964 no Rio de Janeiro. Nunca perdeu a sua conexão a
Portugal: nos Açores o nome de Cecília Meireles foi dado à Escola básica de
Fãja de Cima.
Florbela
Espanca e Cecília Meireles são duas mulheres cuja vida foi marcada pelo Sotaque
feminino do amor. Sem barreiras, aquele amor que tanto nos leva ao prazer do
êxtase como ao abismo da morte.
Autor:
Rui Marques
